Trump chamou às alterações climáticas uma ‘fraude’. Eis o contexto e as nossas respostas.
- neusameneses
- Oct 1, 2025
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O Presidente Donald Trump aproveitou o seu discurso na Assembleia Geral da ONU, no passado dia 23 de setembro, para fazer a sua mais longa declaração sobre as suas posições em matéria de clima e energia desde o regresso à Casa Branca.
No seu discurso de dez minutos sobre como as alterações climáticas são “a maior burla alguma vez perpetrada contra o mundo”, Trump não disse nada de novo, inteligente ou convincente.
No mesmo discurso, chamou às energias renováveis uma “piada”, descreveu a pegada de carbono como "um disparate”, e afirmou que os ambientalistas “querem matar todas as vacas”.
No essencial, limitou-se a repetir os mesmos argumentos gastos, facilmente desmentidos, que ele e a indústria do petróleo têm repetido há vinte anos.
No nosso artigo desta semana, confrontamos as declarações de Donald Trump com os factos.
Alguns dos destaques do discurso de Trump e as nossas respostas
O que Trump disse:
“A Europa reduziu a sua pegada de carbono em 37%. Parabéns, Europa. Mas isso custou muitos empregos, muitas fábricas fecharam. E, apesar de todo esse sacrifício, foi totalmente anulado por um aumento global de 54%, grande parte vindo da China e de outros países em crescimento. A pegada de carbono é, de qualquer forma, um disparate.“
Os factos:
É verdade que, em 2023, as emissões líquidas da UE ficaram 37% abaixo de 1990; também é verdade que o PIB cresceu aproximadamente 68% no mesmo período. Ou seja, houve um desacoplamento entre crescimento e emissões.
Além disso, em 2023 a maior queda veio do setor da eletricidade, graças à transição energética — não por “fechos de fábricas” como foi afirmado por Donald Trump. Adicionalmente, o setor de bens e serviços ambientais da UE (que inclui renováveis, eficiência energética, gestão de resíduos, etc.) já empregava 6,67 milhões de pessoas a tempo inteiro em 2022, mais 1,26 milhões do que em 2010.
Relativamente à China, é verdade que esta é hoje o maior emissor anual e continua a expandir a indústria do carvão para a produção de químicos e combustíveis, o que dificulta o cumprimento das suas metas climáticas. Contudo, os dados mais recentes mostram uma viragem encorajadora: graças a um crescimento recorde da energia solar, as suas emissões caíram 1% no primeiro semestre de 2025, com a produção de eletricidade a carvão a recuar 3%. Só a nova capacidade solar instalada nesse período (212 GW) já foi suficiente para cobrir todo o aumento da procura de eletricidade.
Se esta tendência se mantiver, a China poderá fechar 2025 com a sua primeira redução anual de emissões — impulsionada pelo setor das renováveis.
O que Trump disse:
“Tenho uma pequena regra na Casa Branca. Nunca usem a palavra ‘carvão’. Digam sempre ‘carvão limpo e bonito’. Soa muito melhor, não soa?”
Os factos:
O carvão mata milhões de pessoas todos os anos.
Quando Trump sugere ‘carvão limpo e bonito’, a realidade mostra o oposto: a poluição gerada pelas centrais a carvão contribuiu para cerca de 460 000 mortes prematuras nos EUA entre 1999 e 2020.
Globalmente, os combustíveis fósseis estão relacionados com milhões de mortes anuais. Um estudo estima que mais de 5,13 milhões de mortes anuais em todo o mundo são provocadas pela poluição ambiental resultante do uso de combustíveis fósseis (incluindo carvão).
Adicionalmente, a poluição proveniente de centrais a carvão é mais letal por unidade de emissão do que de muitas outras fontes de poluição via partículas finas. Estas partículas podem agravar doenças respiratórias, cardiovasculares e aumentar os riscos de infeções pulmonares, cancro de pulmão e acidente vascular cerebral.
O presidente Donald Trump pode fingir que o carvão é limpo, mas pessoas reais vão morrer por causa desta mentira.
O que Trump disse:
“Vamos livrar-nos das chamadas renováveis. São uma piada. Não funcionam. São demasiado caras.”
Os factos:
Demasiado caras comparadas com o quê? A maioria das energias renováveis é hoje mais barata do que os combustíveis fósseis. Em média, a energia solar é atualmente 41% mais barata do que a fonte fóssil mais barata para geração elétrica. A energia eólica offshore é 53% mais barata.
De acordo com o diretor académico do Kleinman Center for Energy Policy da Universidade da Pensilvânia: “é muito mais eficiente do ponto de vista económico e menos intensivo em carbono construir centrais a gás ou apostar em energias renováveis, como a eólica e a solar, do que construir uma nova central a carvão.”
O que Trump disse:
“O diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente previu que, até ao ano 2000, as alterações climáticas causariam uma catástrofe global. Disse que seria tão irreversível como um holocausto nuclear. Foi isto que disseram na ONU. O que aconteceu?”
Os factos:
Em grande parte, ele tinha razão. As alterações climáticas estão a causar uma catástrofe global e muitos dos impactos são irreversíveis. A previsão de Mostafa K. Tolba não acertou no prazo, mas foi feita há 43 anos. Desde então, a ciência climática só avançou, com dezenas de milhares de estudos publicados, levando a previsões cada vez mais precisas.
Em 2018, o próprio governo de Trump declarou: “Os impactos das alterações climáticas globais já se fazem sentir nos Estados Unidos e deverão intensificar-se no futuro.”
O que Trump disse:
“Outro responsável da ONU afirmou, em 1989, que dentro de uma década nações inteiras poderiam ser varridas do mapa pelo aquecimento global. Não aconteceu!”
Os factos:
Na realidade, está a acontecer. Pequenos Estados insulares como Tuvalu, Kiribati e Fiji estão literalmente a ser engolidos pela subida do mar, e populações inteiras são forçadas a evacuar. Adicionalmente, a ONU já alertou que dezenas de milhões de pessoas em zonas costeiras baixas — desde o Bangladesh até Miami — estão em risco direto devido à subida do nível médio do mar, que tem vindo a acelerar nas últimas décadas.
Estudos mostram que, mesmo que todas as metas do Acordo de Paris fossem cumpridas hoje, o nível do mar continuará a subir durante séculos devido ao aquecimento já acumulado no planeta.
Para além disso, o responsável a que Trump se referia — Noel Brown, o então diretor do escritório de Nova Iorque do Programa da ONU para o Ambiente — não disse que estas nações afundariam “numa década”. Em 1989, Noel Brown alertou que os governos tinham uma janela de dez anos para agir antes que os impactos climáticos se tornassem graves e irreversíveis, caso contrário, algumas nações poderiam mesmo desaparecer.
O que Trump disse:
“Sabem, costumava ser o arrefecimento global. Se recuarmos aos anos 1920 e 1930, diziam: ‘O arrefecimento global vai destruir o mundo. Temos de agir.’”
Os factos:
Não é verdade. Nunca houve consenso científico sobre o “arrefecimento global”. Pelo contrário, já nessa época alguns investigadores alertavam para a queima de carvão e o excesso de CO₂.
O que Trump disse:
“Depois disseram que o aquecimento global iria destruir o mundo, mas depois começou a arrefecer. Então passaram a chamar-lhe alterações climáticas, porque assim não falham. Se sobe ou desce, o que quer que aconteça, são alterações climáticas. É a maior burla alguma vez perpetrada contra o mundo, na minha opinião.”
Os factos:
O termo ‘alterações climáticas’ já era usado em ciência muito antes do debate político atual, e foi consolidado nos anos 1970 para descrever os efeitos do aquecimento global causado pelas atividades humanas.
Refere-se, não apenas ao aumento da temperatura média global, mas também a todas as consequências associadas: subida do nível do mar, derretimento de gelo, secas, tempestades mais intensas e até ondas de frio em algumas regiões.
Explicando de forma simples: quando a temperatura média do planeta aumenta, os padrões meteorológicos tornam-se mais instáveis e, em certas regiões, podem comportar-se de forma inesperada. Por exemplo, o aquecimento do Ártico enfraquece a corrente de jato, permitindo que massas de ar polar avancem mais a sul, o que causa vagas de frio em locais onde não eram comuns. Não é uma burla, é ciência.
O que Trump disse:
“Sou muito bom a prever coisas. Não digo isto de forma vaidosa, mas é verdade. Tenho acertado em tudo. E digo-vos: se não se afastarem da fraude da energia verde, o vosso país vai falhar.”
Os factos:
Este é o mesmo homem que previu que o COVID-19 iria “desaparecer como um milagre”, que os furacões podiam ser desviados com bombas nucleares e que o carvão voltaria a ser o futuro da energia.
Os factos falam por si.



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