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Democracia em Risco: O Papel da Verdade Económica

A democracia depende mais da verdade do que da ideologia. Quando falta transparência sobre os riscos que moldam o futuro — do clima à economia — o debate público empobrece, a confiança nas instituições erode-se e abre-se espaço ao populismo e a narrativas fáceis que prometem certezas onde elas já não existem.


POR SOFIA SANTOS

A democracia está em risco no mundo, na Europa e em Portugal. Uma democracia é alimentada também pela capacidade empresarial de ser visionária, transparente, pensar a médio e a longo prazo e não mentir nem omitir.

Quando a esfera económica deixa de dialogar com o futuro — ou, pior, quando tenta convencer-nos de que o futuro não interessa — a democracia começa a perder um dos seus pilares silenciosos: a verdade sobre o que está por vir.


Vivemos um momento em que os riscos climáticos deixaram de ser uma nota de rodapé nos relatórios corporativos. São riscos materiais, mensuráveis, estruturantes. E, ainda assim, persistem discursos que os minimizam, como se reconhecer a evidência fosse um gesto ideológico e não um imperativo racional.

Esta recusa em olhar o futuro de frente não é inocente. Uma sociedade que não compreende os riscos que enfrenta é uma sociedade vulnerável a narrativas fáceis, a líderes que oferecem certezas falsas e a decisões económicas que sacrificam o longo prazo por uma ilusão de estabilidade imediata.

Tudo isto com o objetivo de obter o poder de decidir ignorando o futuro. Mas como se pode ser um bom político ignorando o futuro? Talvez por isso também as democracias estejam em risco, pois os bons políticos são poucos, a maioria não fala do futuro, obtendo votos por conseguir trazer o pior que há em nós, humanos: a inveja, a vitimização e o ódio.

A verdade é que a transparência empresarial — sobretudo a relacionada com impactos ambientais, estratégias de transição e exposição a riscos — não serve apenas investidores ou reguladores. Serve a democracia. Sem informação clara e verificável, os cidadãos não conseguem avaliar se as decisões económicas são compatíveis com o interesse público ou se continuam presas a modelos ultrapassados que geram emissões, desigualdades e custos que recaem inevitavelmente sobre todos nós.


Esses custos geram insatisfação social e descrédito do “sistema”, alimentando o crescimento do apoio a movimentos extremistas que exploram a frustração e a vitimização, as quais se consubstanciam numa competitividade extrema baseada na cor, na origem de nascença ou até no trabalho exercido.


Quando vejo empresas que comunicam de forma opaca, ou que optam por relatórios que escondem mais do que revelam, penso sempre no efeito sistémico dessa escolha. Uma economia que não se explica é uma economia que pede confiança cega. Mas confiança cega não é confiança democrática; é dependência. E a dependência, em qualquer sistema político, abre espaço a abusos, captura institucional e manipulação.

Ao contrário do que alguns discursos políticos sugerem, pensar o futuro não é um exercício “ideológico”. É um dever e faz parte de qualquer pensamento político e empresarial. Os riscos climáticos não esperam, as transições económicas exigem preparação e as escolhas que fazemos hoje determinam a resiliência de amanhã. É por isso que a transparência importa: porque ilumina o caminho, porque permite ajustar estratégias, porque obriga à honestidade — e porque neutraliza a tentação de gerir empresas como quem vive apenas do ciclo imediato.


Uma democracia forte precisa de uma economia que se reconheça como parte do bem comum. Empresas que assumem os seus riscos e comunicam com rigor ajudam a construir estabilidade, reduzem incertezas e reforçam a confiança pública nas instituições. Tornam possível um debate informado e reduzem o espaço para populismos que florescem na sombra da desinformação. No fundo, a ligação entre democracia, transparência e risco climático não é abstrata. É profundamente prática: sem verdade, não há futuro; sem futuro, não há democracia.


E é por isso que precisamos de lideranças — políticas e empresariais — que tenham coragem de não iludir, de não adiar, de não esconder. Lideranças que compreendam que o amanhã não é um detalhe. É, cada vez mais, a medida da nossa maturidade democrática.


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