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PME: As novas protagonistas da sustentabilidade

Por: Ricardo Cunha, consultor de sustentabilidade na Systemic


Durante muito tempo, o relato de sustentabilidade foi encarado como uma obrigação exclusiva das grandes empresas, capazes de mobilizar recursos humanos e técnicos para dar resposta a requisitos complexos. As PME, apesar de representarem a base da economia europeia em termos de emprego e inovação, ficavam frequentemente afastadas deste processo, seja por limitações internas, seja pela perceção de que o esforço exigido não correspondia à sua realidade.


A adoção, a 30 de julho de 2025, do Standard Voluntário de Reporte de Sustentabilidade para PME (VSME) veio alterar este equilíbrio. O novo enquadramento não só aproxima as PME das grandes organizações, como também cria condições inéditas de comparabilidade.


Há uma relação estreita entre este movimento e o pacote Omnibus, apresentado pela Comissão Europeia em 26 de fevereiro de 2025. O pacote adiou em dois anos a implementação da CSRD (Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa) para muitas empresas e elevou o limiar de aplicação em várias obrigações. Na prática, isto significa que grandes empresas e PME cotadas que iriam reportar segundo as ESRS (European Sustainability Reporting Standards) deixam de estar obrigadas a fazê-lo no imediato.


É neste contexto que a VSME ganha força. Ao permitir às PME demonstrar, de forma voluntária, o seu compromisso com a sustentabilidade, segundo um referencial europeu simplificado, dá-lhes a possibilidade de apresentar dados comparáveis não só com a sua cadeia de valor, mas também com as grandes empresas que optem pelo mesmo referencial de reporte. A igualdade de condições torna-se, assim, um fator diferenciador.

Hoje, as grandes organizações necessitam de recolher dados ESG junto dos seus fornecedores. Uma PME que recorra à VSME responde a esse pedido com rapidez e consistência, reduzindo o risco de exclusão. Além disso, a recomendação da Comissão impede que sejam exigidas informações adicionais para além do previsto na norma, garantindo proteção contra encargos desproporcionadas.


A comparabilidade com grandes empresas é talvez o ponto mais transformador. Se uma PME demonstra, por exemplo, que em intensidade carbónica por volume de negócios ou em igualdade salarial apresenta resultados semelhantes — ou até superiores — aos de uma organização muito maior, pode deixar de ser percecionada como “pequena”. O relato passa a ser um verdadeiro instrumento de posicionamento estratégico.

É certo que existem desafios: nem todas as PME dispõem dos recursos internos necessários para explorar todo o potencial do standard, e alguns investidores podem considerar a VSME uma solução “de segunda linha”, dado o seu carácter voluntário e transitório.


Ainda assim, ignorar este standard é arriscado, pois significa abdicar de responder às expectativas crescentes de clientes, bancos e reguladores, justamente quando a sustentabilidade se afirma como critério central de competitividade.


A mensagem é clara: a VSME não é apenas um documento técnico, é uma oportunidade única para que PME e grandes empresas possam falar a mesma “linguagem” de sustentabilidade, reforçar a sua credibilidade e aceder a novas formas de financiamento. Em última análise, é o instrumento que permite às PME ultrapassar o rótulo de “pequenas” e afirmar-se como atores centrais na transição sustentável da economia europeia.


 
 
 

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